Vou pra Porto Alegre, tchau!
Urbana, rural, calma, agitada, simples, sofisticada...
a capital gaúcha vai surpreender você
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Um gaúcho urbano diria que ela é assim, bah, tudo de bom. No interior, não tem quem não diga que ela é “flor de especial, lindaça barbaridade”, mais bonita “que prenda de vestido novo”. Em todo o Rio Grande do Sul, não tem quem não sonhe em ver ou rever sua capital. Porto Alegre é deste jeito: urbana, rural, calma, agitada, simples, sofisticada, bela, mais bela ainda. É verdade que essa metrópole de 1,3 milhão de habitantes tem tudo o que se espera de um grande centro. Mas tem mais. Tem o âmago da história de um povo que se orgulha de seu passado, de suas tradições. Para mostrar que um pouco da alma do gaúcho repousa no coração dessa cidade, convidamos você a dar um passeio por uma Porto Alegre cheia de contrastes e surpresas. No final, você poderá entender um pouquinho dessa mania que todo gaúcho tem de dizer que sua capital é o lugar mais lindo deste mundo.
A cidade não foi a primeira a ser fundada no Estado, embora esteja entre as mais antigas. Já se chamou Porto dos Casais, em função dos açorianos que desembarcavam na margem do Rio Guaíba. Que não é bem um rio, mas um lago que recebe as águas dos principais rios gaúchos, como o Caí e o dos Sinos, e as transfere para a Lagoa dos Patos. Mesmo não sendo um rio clássico, o Guaíba tem correnteza, profundidade de cerca de 60 metros no canal e muitas ilhas. Barcos turísticos fazem passeios para a observação da natureza que cresce nas margens e, é claro, para a contemplação do famoso pôr-do-sol, que tanto inspira os músicos e poetas.
A visita pode começar pelo centro. Os prédios antigos, sejam eles açorianos, góticos ou neoclássicos, refletem períodos desde o início da colonização até o pós-guerra, quando os imigrantes chegaram em massa. As paredes do Mercado Público, por exemplo, contam causos dos homens do fim do século 19, quando a cidade começava a crescer e tornar-se o coração financeiro do Estado. Lá ainda se pode provar a salada de frutas com nata da Banca 40, receita criada há 81 anos por um português quitandeiro.
Por gostar tanto de história, Porto Alegre se especializou em museus. Tem para todos os gostos, da música ao azulejo. No Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), as obras se confundem e se mesclam com a beleza do prédio histórico em que encontraram morada. Ainda no centro, o lindo edifício cor-de-rosa que um dia foi o Hotel Majestic abriga exposições, cinema, mostras e boa parte da história do poeta Mario Quintana. Ele morou até o fim da vida em um dos quartos do hotel (hoje uma casa de cultura que leva seu nome). Da janela, pôde ver e viver Porto Alegre e poetizar o mundo e os homens. Nas margens do Guaíba, uma usina termoelétrica tornou-se um centro cultural, que recebe shows, espetáculos teatrais, exposições e tem um terraço de onde se pode observar o pôr-do-sol.
Há ainda o Museu de Ciência e Tecnologia da PUC, o Memorial do Rio Grande do Sul e o Museu do Trabalho. Quer mais cultura? Então não perca um espetáculo no centenário Theatro São Pedro e observe a beleza dos vitrais e da abóbada da Catedral Metropolitana. O recém-inaugurado Museu Iberê Camargo foi projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza e premiado com o Leão de Ouro na 8ª Bienal de Arquitetura de Veneza. É quase uma escultura urbana na paisagem porto-alegrense. As paredes brancas guardam gravuras, desenhos e pinturas que revelam o rigor e sensibilidade desse artista universal. E que tal uma voltinha pelas Ruas Riachuelo e General Câmara? Lá estão os melhores sebos da cidade, onde se encontram gibis, discos e edições raras.
No lugar com o segundo índice de desenvolvimento humano entre as capitais brasileiras, há espaços que lembram as mais bucólicas fazendas, mesmo dentro dos limites territoriais urbanos. Sabendo disso, o setor de turismo da prefeitura criou o roteiro conhecido como Caminhos Rurais. Durante um dia inteiro, visitam-se alambiques, pequenas vinícolas, oficinas de artesanato, viveiros de flores, restaurantes de café colonial e comida campeira e chácaras de produção de alimentos orgânicos.
Em bairros como Belém Novo e Lami, há pousadas que oferecem cavalgadas e trilhas ecológicas pela mata que circunda a orla ainda sem poluição do Guaíba. Ali o sotaque é mais carregado, o povo é hospitaleiro e adora contar uma história.
Em grande parte das zonas norte e central, as ruas são verdadeiros corredores vivos, fechados pela copa das árvores. Há ipês, jacarandás e cinamomos, de cujos galhos pendem lânguidos cipós onde cantam canários-da-terra e sabiás. Estão ali há 40, 50, 100 anos. Alguns desses corredores, junto com o casario antigo, já viraram patrimônio histórico. O plano diretor de bairros como Moinhos de Vento e Bom Fim determina a manutenção das árvores e fachadas. Caminhar por ali é um fazer nada delicioso.
Quando o sol colabora, o fim de semana é perfeito para aproveitar o melhor programa, inesquecível por ser gratuito, simples e autêntico. Se você não é gaúcho, trate de comprar os apetrechos para o chimarrão e tomar umas aulas rápidas sobre a bebida. Prepare uma esteira, coloque uns sanduíches na bolsa e rume para algum parque. Ah, se você for gaúcho... bem, nem precisa explicar.
O mais famoso de todos é o Parque Farroupilha, conhecido pelos porto-alegrenses como Redenção. A gigantesca área verde tem praça, restaurantes, cafés e um brique (feira) que atrai milhares de pessoas nos sábados e domingos. Artesãos, artistas e afins encontram-se para mostrar o que sabem e vender o que produzem. Para qualquer lado que você olhe tem um escultor, uma bordadeira, um velhinho mostrando antiguidades, um grupo mambembe de circo. Tem também gente sentada na grama, mateando, jogando conversa fora e deixando as horas passar.
“Recorrendo à minha imperial clemência aqueles de meus súditos que têm sustentado, na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, uma causa atentatória da Constituição Política do Estado, dos decretos de minha Imperial Coroa e não sendo compatível com os sentimentos do meu coração o negar-lhes a paternal proteção a que os ditos meus súditos se acolhem arrependidos: Hei por bem conceder a todos plena e absoluta anistia.”
Nesse trecho escrito por dom Pedro II firmou-se o Tratado de Poncho Verde, em 1845. O acordo deu fim à mais longa e sangrenta revolta armada do Império, quando o Rio Grande se separou da Coroa e se manteve como república por dez anos. As palavras de clemência do imperador, arquitetadas em conluio com lideranças contrárias à revolta, foram motivo de dor para os que acreditavam ser possível viver em um país livre da monarquia.
Hoje, em meio a uma capital cosmopolita e universal, os gaúchos encontram no passado o eco para firmar sua identidade. Todos os anos, em setembro, o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho torna-se um enorme acampamento.
radicionalistas de todos os pontos do Estado juntam-se para cultuar as tradições. São quase 30 dias de fandangos, churrascos à moda campeira (temperados apenas com sal grosso e assados em fogo de chão), rodas de chimarrão. Tudo para esperar o feriado mais importante do ano: o 20 de Setembro, Dia do Gaúcho. Foi nesse dia, há quase 200 anos, que o general Antônio de Sousa Neto proclamou a República Rio-Grandense. Os desfiles comemorativos pelas ruas de Porto Alegre são um espetáculo bem maior que o carnaval. Carros alegóricos, gaúchos e prendas mostrando a habilidade com os cavalos e muita música nativista para exaltar uma memória cada vez mais viva.
Nosso passeio está chegando ao fim, e um típico porto-alegrense diria que a experiência foi tri (o antes inseparável legal que consagrou a expressão já foi abolido em nome da rapidez da informação). Os interioranos diriam estar “mais faceiros que beata em dia de santo”. Mas, para encerrar esta reportagem, vamos apelar a dois famosos músicos do Rio Grande do Sul. Ao sentirem saudade da capital, os irmãos Kleiton e Kledir, dupla que fez sucesso nacional nos anos 80, profetizaram que bastaria um passeio por lá para recuperar o bom humor. Então, deu pra ti, baixo-astral. Eu vou para Porto Alegre... tchau!