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Uma nova Bogotá

por Werner Rudhart

Reurbanizada, a capital colombiana torna-se uma excelente opção de turismo na América do Sul

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“Bogotá, 2,6 mil metros mais perto das estrelas”, diz uma expressão popular colombiana. Além do firmamento salpicado de luzes, quem deixa o Aeroporto El Dorado em uma noite clara logo experimenta outra sensação da cidade: um vento gélido soprando no rosto. Encravada na cordilheira oriental dos Andes, quase quatro vezes mais alta que São Paulo (que fica, em média, a 760 metros do nível do mar), porém perto da linha do Equador, Bogotá tem os dias ame­nos e as noites frias, com os termômetros na casa dos 14 graus, num clima de primavera permanente.

Trata-se de uma cidade que pode ser conquistada aos poucos. Hoje é um lugar aprazível, onde há limpeza e organização e podem-se encontrar segurança e tranqüilidade. Essa transformação recente é fruto não só de ações repressivas, mas de uma combinação de intervenções urbanísticas, educacionais, culturais e esportivas. Tanto que na Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2006, a capital colombiana foi premiada com o Leão de Ouro pelos seus esforços de revitalização urbana.

A mais visível dessas intervenções é um imenso corredor expresso de ônibus chamado de TransMilenio. Baseado no famoso modelo de trânsito desenvolvido pela cidade brasileira de Curitiba, batizado como bus rapid transit (BRT), o sistema bogotano mudou o conceito de ônibus, deu nova identidade à cidade e aumentou a auto-estima dos seus habitantes.

Depois de 30 anos de planejamentos infrutíferos para um metrô que nunca saiu do papel, desde 2000 Bogotá está instalando um sistema integrado, que utiliza ônibus articulados de um vermelho reluzente circulando em faixas separadas, com paradas em estações modernas e equipadas com catracas eletrônicas. O grande diferencial do TransMilenio é o forte investimento para dar conforto e segurança ao usuário e ao pedestre.

As calçadas foram ampliadas e passarelas foram construídas. Em bairros pobres, surgiram parques, iluminação pública, bibliotecas, escolas e uma série de projetos para tirar os jovens da marginalidade e diminuir as tensões sociais. Tudo isso sob o lema de que a cidade pertence às pessoas, não aos automóveis.

Também seguindo esse conceito, formou-se uma enorme rede de ciclovias, totalizando mais de 300 quilômetros. O ciclismo, por sinal, é uma verdadeira paixão colombiana. Desde 1976, a cidade se organiza todos os domingos e feriados para, das 7 às 14 horas, ba­nir os carros num trecho de 120 quilômetros em 18 dos 20 bairros. Semanalmente, até 2 milhões de pessoas usufruem esse espaço reconquistado com suas bicicletas, skates ou simplesmente a pé. No percurso, banheiros públicos, pontos de informação e agentes comunitários dando segurança nos cruzamentos.

Situada praticamente no centro do país, Santa Fé de Bogotá é a metrópole da Colômbia, e sua importância vem de longa data. Na língua dos índios, bacatá, de onde se originou o nome Bogotá, significa “a beira da terra cultivada”. Foi capital do vice-reinado de Nueva Granada, e lá se cruzaram os caminhos de conquistadores à procura da misteriosa terra de El Dorado. Um deles, Gonzalo Jiménez de Quesada, fundou a cidade em 1538. Hoje as cadeias de montanhas que cingem a planície fazem a megalópole e seus 8 milhões de habitantes avançar cada vez mais sobre os verdes pastos e plantações de flores da sabana de Bogotá.

Dos espanhóis, Bogotá herdou um traçado urbano regular, que divide o espaço em calles e vias transversais, as carreras, iguais às casas de um tabuleiro de xadrez. Para quem gosta de jogar com serenidade, o primeiro movimento da partida pode ser dado em sua praça maior.

A Plaza Bolívar é o centro da Bogotá histórica e o núcleo administrativo e representativo da capital. Ali a bandeira colombiana costuma ser agitada durante manifestações e discursos públicos, e famílias passeiam nos domingos ensolarados, alimentando as pom­bas ou comprando sorvete num dos muitos carrinhos. A praça é dominada por prédios monumentais. No leste reinam com paz sublime a catedral neoclássica e a adjacente Capilla del Sagrario, com seu portal barroco.

No norte, o concreto maciço dos pilares do Palácio da Justiça lembra o dramático ano de 1985, quando o prédio, tomado por guerrilheiros, foi destruído numa batalha e depois reconstruído. Sua aparência monumental faz com que até o Capitólio Nacional, erguido à maneira da Casa Branca americana, no lado oposto da praça, perca seu peso.

Se a Plaza Bolívar é o coração, La Candelária, o bairro no seu entorno, representa a alma de Bogotá. Seus becos pitorescos e vielas apertadas com casarões históricos entremeados de prédios ecléticos da época republicana convidam a perambular por outros tempos. Aqui se encontra o “charme colonial” que fez o jornal New York Times colocar a cidade no 21° lugar em sua lista dos 53 lugares indispensáveis de 2008, à frente de alguns destinos tradicionalmente mais cotados pelos turistas, como Buenos Aires (27°), a Ilha de Páscoa (36°), San Francisco (39°) e a praia brasileira de Itacaré, na Bahia (41°).
 Na Candelária estão as igrejas das mais diversas ordens católicas e as tavernas para os mais variados gostos culinários, além de sete teatros (inclusive o Teatro Colón, do século 19), várias bibliotecas e museus.

Entre eles, o Museu Arqueológico, que abriga a me­lhor coleção de cerâmica indígena da Colômbia. Ou ainda o admirável Museo Donacíon Botero. O artista tornou-se famoso pela representação de figuras gordas, que elevaram sua obra a um status de quase unanimidade internacional. Em 1998, quando expôs no Masp, em São Paulo, a mostra foi visitada por 121.611 pessoas, perdendo então apenas para a de Salvador Dalí, vista por 132.894 espectadores. Botero presenteou a cidade com uma coleção de trabalhos seus e de colegas ilustres cuja lista é tão extensa quanto impressionante e inclui Picasso, Chagall, Gustav Klimt, Fernand Léger, Francis Bacon, De Chirico, Toulouse-Lautrec, Max Ernst, George Grosz, Henry Moore e Alberto Giacometti.

Bogotá tem mais de 60 museus. É nos seus acervos que a cidade guarda as maiores belezas e riquezas. Como, literalmente, no incrível Museu do Ouro, onde o Banco Central da Colômbia conserva a mais importante coleção de ourivesaria pré-colombiana do mundo. São mais de 38 mil peças lustrosas, 5 mil delas à mostra. Para garantir a tranqüilidade de espírito nessa deslumbrante ce­lebração do mito do ouro, apenas um pequeno grupo de cu­rio­sos por vez pode passar pelas pesadas portas de caixa-forte.

O clímax do culto é a visita ao Salão Dourado. Mal se fecha a porta e luzes, que se acendem no ritmo de uma música cerimonial, fazem reluzir centenas de sóis, plantas, animais e outros fetiches dourados, todos inseridos nas paisagens artificiais de uma vitrine de 360 graus.

Do lado de fora do museu, o pequeno e simpático Parque de Santander, na Carrera 7, é provavelmente o parque mais visitado por turistas em Bogotá. Rodeado por três igrejas dos primórdios da cidade, vive sempre lotado de ambulantes, engraxates e senhores lendo seus jornais.

Para quem procura modernidade em vez de história e prefere ares menos populares, a cidade oferece templos mais modernos, nas regiões dos gourmets e do comércio chique. São bairros como La Cabrera ou a Zona Rosa, o badalado quadrilátero entre as Carreras 15 e 11 e as Calles 82 e 80, cravejado de restaurantes, bares, lojas e shopping centers, como o Andino e o Atlantis Plaza, que nos fins de semana ferve até altas horas. Nos arredores da capital, vale uma visita à cidadezinha de Zipaquirá e à sua Catedral de Sal, erguida em honra à Virgen del Rosário de Guasá, padroeira dos mineiros colombianos.

Há ainda quem prefira um local de peregrinação mais tradicional, e ainda servido por um cômodo teleférico. O ponto alto da cidade fica, literalmente, em uma pequena e branca igreja no topo do Montserrat, na cordilheira arborizada que limita a aglomeração urbana no leste. Dali se avista todo o tabuleiro urbano de Bogotá da forma mais espetacular. Afinal, aqui você está 2,6 mil metros mais perto das estrelas.

O país das rosas 
Nem só de café vive a Colômbia. Atualmente, um dos mais importantes produtos de exportação do país são as flores. No ranking dos maiores exportadores mundiais, os colombianos ficam em segundo lugar, abaixo somente da Holanda. Um negócio que gera cerca de 2 bilhões de reais por ano.
Entre essas flores, exportadas principalmente para os Estados Unidos, destacam-se as rosas. Nos anos 70, quando a produção de flores pulou para o Hemisfério Sul do planeta, descobriu-se que a grande planície fértil em torno de Bogotá era perfeita para o cultivo de certas espécies. Lá, as rosas colombianas são plantadas a 2,6 mil metros de altitude e perto da linha do Equador. A grande luminosidade do sol intensifica a coloração das corolas, e as frescas noites andinas retardam sua abertura. Em pouco tempo, os botões dobram de tamanho e chegam a durar até três semanas. Alguns desses belos exemplares podem ser admirados no site de uma das fazendas que os produzem (www.benildaflowers.com).