De Zurique para o Rio

por Ricardo Beliel

Casarão abrigará na América Latina as obras da Suíça Casa Daros

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Um novo e ambicioso espaço das artes está surgindo no coração do Rio de Janeiro. Vizinho ao mítico campo do Botafogo, onde em tempos idos craques como Garrincha, Didi, Jairzinho e Gérson treinavam a arte de entortar zagueiros adversários, um vetusto casarão, que por mais de um século abrigou os Colégios Santa Tereza e Anglo-Americano, será transformado em filial da Casa Daros, instituição privada com sede na cidade suíça de Zurique. Lá, ocupa o prédio de uma antiga cervejaria, onde mantém um prestigiado acervo de arte contemporânea especializada em artistas europeus e norte-americanos e outra vertente específica para a produção latino-americana dos últimos 50 anos. A coleção Daros LatinoAmerica conta com mais de mil obras de cerca de cem artistas, o que a torna a maior no gênero fora do continente americano.

Tudo começou nos anos 80, quando o industrial Alexander Schmidhiny iniciou uma coleção de artistas norte-americanos do pós-guerra, estendendo-a pouco depois aos grandes nomes do ambiente artístico europeu. Gente como Barnett Newman, Richard Serra, Ellsworth Kelly, Sol LeWitt, Cy Twombly, Joseph Beuys, Jackson Pollock e Andy Warhol dá uma idéia da importância da coleção. Com a morte de Alexander, seu irmão Stephan e sua mulher, Ruth, assumem a coleção e passam a dirigir seus interesses também para o que havia de mais significativo e contemporâneo nos países ao sul do cenário norte-americano. Entram para a seleção Hélio Oiticica, Kuitca, Julio Le Parc, Jesús Rafael Soto, Waltercio Caldas, Lygia Clark e Mario Cravo Neto, entre outros nomes.

Com o curador Hans-Michael Herzog à frente do projeto, começa a procura por um local onde fundar a sede latino-americana. Começam os contatos com o historiador de arte cubano Eugenio Valdés Figueroa, então curador da Bienal de Havana. Após um namoro inicial com a capital cubana, decide-se pelo Rio de Janeiro. “O Rio é o Rio, e isso basta para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo”, sentencia Eugenio, hoje um dos diretores do projeto. “É tão maravilhoso quanto Havana, mas impressiona pela quantidade de artistas que vivem na cidade.”

O prédio foi adquirido, por 16 milhões de reais, à Santa Casa de Misericórdia, que o construiu em 1866, e entregue a uma ampla reforma idealizada pelo premiado arquiteto paulistano Paulo Mendes da Rocha. O mesmo que transformou a antiga Estação da Luz no sofisticado Museu da Língua Portuguesa. São 12 mil metros quadrados de área construída em dois andares de estilo neo­clássico, com 500 vãos entre janelas e portas, e agradáveis jardins internos de onde se projeta um conjunto de 32 palmeiras imperiais. Por enquanto, tudo não passa de um imenso canteiro de obras, que mais parece um sítio arqueológico, expondo a intimidade de velhas paredes e a anatomia irregular de tijolos seculares. Em breve, ali se erguerá um conjunto de salas de exposições, centro de documentação, auditório multifuncional, biblioteca, espaço de arte e educação, restaurante, bar e residência para artistas convidados.
Recentemente, um grupo de artistas renomados, como Vik Muniz, Antonio Dias e Iole de Freitas, pôde apresentar e discutir seus trabalhos com um ainda pequeno grupo de convidados, numa série de seminários intitulada Passa Lá em Casa. Eles ocuparam o único espaço protegido das nuvens de poeira, um galpão de concreto chamado de “Barracão Daros”. Outras oficinas com artistas e educadores reuniam 24 jovens, como o brasileiro Ernesto Neto, a mexicana Betsabée Romero, o panamenho Humberto Vélez e o cubano Tonel, num diálogo sobre seus processos de criação.

Em outra iniciativa que demonstra a preocupação de abrir os braços para os vários segmentos da população carioca, a gerente-geral, Isabella Rosado Nunes, chamou para documentar a obra de restauração do casarão um grupo de seis jovens da Escola de Fotógrafos Populares, da favela carioca da Maré. Após um workshop, eles receberam da artista plástica Rosângela Rennó antigas câmeras fotográficas analógicas acompanhadas do estímulo à liberdade de olhar através do visor. Enquanto isso, 40 crianças, também da Maré, criaram uma série de fotografias com efeitos estéticos surpreendentes, usando câmeras improvisadas feitas de caixas de charutos, de sapatos, latas de leite ou mesmo minúsculas caixinhas de fósforos. O resultado desse projeto, batizado de Metamorfose de um Registro, transformou-se numa bela exposição, que atualmente já pode ser admirada no Barracão Daros.

Mesmo inacabada, a Casa Daros já provoca entusiasmo entre a classe artística. “Essa superorganização suíça é como um oásis em meio ao caos das instituições locais”, atesta o artista paulistano Nelson Leirner, radicado há 12 anos no Rio.  Já o artista carioca Ernesto Neto, ao ser convidado para participar de um dos seminários, pôde reencontrar seu passado de estudante, pois freqüentava o velho casarão na época do Colégio Anglo-Americano.