De “campesino” a presidente
A história de superação de don Alfonso Larraín Santa Maria, executivo de uma das maiores produtoras de vinho do planeta
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Há dez anos à frente da Vinha Concha y Toro, Alfonso Larraín Santa Maria acaba de ser reeleito para mais uma década na presidência da vitivinícula chilena. Na companhia há 40 anos, sua história é, sob certo aspecto, a trajetória da própria Concha y Toro. Tranqüilo e bem-humorado, don Alfonso, como é chamado, não tem a imagem convencional de um alto executivo, apesar do paletó e da gravata impecáveis. Ele próprio, aliás, se define como um campesino, um agricultor, um homem da terra.
Algum hobby? Diversão preferida? “Trabalhar o tempo todo”, fala, sorrindo. E completa: “São trabalhos distintos, e me divirto com eles. Gosto da natureza. As antigas famílias chilenas, como a minha, viviam da agricultura. Mas nossas propriedades foram expropriadas pelo governo. Estou recomprando as terras onde vivi quando pequeno. É bom, mas trabalhoso, pois estão pulverizadas em pequenas propriedades. Compro um pedaço hoje, outro amanhã. Aos poucos vou armando esse quebra-cabeça”.
Nessas terras, don Alfonso cultiva vinhas, planta pinus e eucalipto de reflorestamento, cria gado e cavalos. “Muitos me criticam por viver trabalhando, mas isso não é trabalho. Agricultura e pecuária me dão prazer. É encantador ver um novilho nascer e crescer”, afirma. Nos fins de semana, adora andar a cavalo. Com cinco filhos e nove netos (o décimo chega em dezembro e, já se sabe, é uma menina), ensinou cada um a cavalgar e a esquiar. “Passamos juntos as férias de verão e, no inverno, freqüentamos um centro de esqui perto de Santiago. Neste inverno, vou manter a tradição e esquiar com meus netos”, conta, animado.
A atração pela terra e o gosto pela agricultura explicam também a presença de don Alfonso na Concha y Toro, considerada em 2007 uma das dez marcas vitivinícolas mais poderosas do mundo pela consultoria internacional Intangible Business: “Passei minha infância no campo, pois a vinha de meu pai era próxima a Santiago. Eu e meus irmãos íamos à escola durante a semana e, aos sábados e domingos, nosso entretenimento era cuidar das videiras, mantê-las limpas e saudáveis, plantar e colher uva”.
Quando as terras de seu pai foram expropriadas, ele decidiu trabalhar no comércio. Na Bolsa de Santiago, o então jovem Alfonso mergulhou no instigante mercado de ações e se deu conta da necessidade de estudar contabilidade e auditoria para, além de compreender melhor o balanço das empresas, recomendar aos investidores as ações mais adequadas às expectativas de cada um. Suas raízes de viticultor o levaram a acompanhar o comportamento das empresas do setor, “e a vinha Concha y Toro, no meu modo de ver, apresentava um desempenho espetacular”, conta. Ele continua: “Com meus poucos ganhos na época, também passei a comprar ações da Concha y Toro, até possuir um volume que me possibilitasse ingressar no quadro de dirigentes da companhia”.
Defensor entusiasmado de que o Chile devia vender seus vinhos para o mercado externo, foi encarregado das exportações da companhia pelo presidente na época, Eduardo Tagle. Don Alfonso relembra: “Aí começa verdadeiramente minha vida na Concha y Toro. Como um caixeiro-viajante, saí pela América Latina e pelo mundo divulgando nosso produto, o potencial chileno, a própria filosofia da empresa. Depois me dei conta de que a melhor estratégia seria ouvir a opinião de nossos potenciais compradores e convidar ao Chile multiplicadores de opinião para que conhecessem nosso trabalho. Assim fizemos”.
Fundada pelo político e empresário chileno don Melchor Concha y Toro no final do século 19, a empresa passou por um processo de modernização sob o comando de Tagle. Em 1994, torna-se a primeira vinha do mundo a comercializar ações na Bolsa de Nova York. Em 1997, assina uma parceria com a Baron Philippe de Rothschild para produzir no Chile um vinho de “primeira ordem”. A Vinha Almaviva é fruto dessa aliança. Hoje a distribuição de seus produtos alcança 125 países. A Concha y Toro opera também na Argentina, por meio da Vinha Trivento, ocupando a segunda posição no ranking exportador de vinhos daquele país. Seu fortalecimento tanto no mercado chileno quanto no externo deve-se a vários fatores, como os investimentos em tecnologia de ponta para a fabricação de vinhos premium e superpremium, produtos da mais alta qualidade que uma vinícola pode oferecer, fruto da rigorosa seleção de uvas e de técnicas sofisticadas.
Gerente-geral e depois vice-presidente, don Alfonso assumiu a presidência em 1998, após a morte de Eduardo Tagle, seu amigo pessoal. Quando perguntado se acha difícil, como presidente, inspirar uma equipe, ele afirma com convicção: “Fácil não é, mas há uma mística indelevelmente impregnada na alma de cada um de nós da Concha y Toro: a de trabalhar em conjunto na busca de qualidade e conduzir a marca sempre adiante. Essa homogeneidade de idéias sempre existiu. Nunca há dois critérios, apenas um”. Ele ainda observa: “Outra coisa interessante da trajetória da Concha y Toro é sua evolução em termos agrícolas. Antigamente, no Chile, só plantávamos o vinhedo na parte plana da propriedade; as encostas não eram utilizadas porque não havia como irrigá-las. De Israel, importamos um sistema que revolucionou o aproveitamento agrícola e que possibilita o controle da quantidade de água usada para a irrigação. Hoje temos um processo inteligente, racional, adequado à produção de grandes uvas. E para ter um grande vinho precisamos de uma grande uva”.
Dos vinhos produzidos com essas grandes uvas, quais os preferidos de Alfonso Larrain Santa Maria? “A preferência por vinhos é sempre uma questão pessoal”, observa. “Como aperitivo, aprecio o Casillero del Diablo branco. Outro do qual gosto muito é o charddonay Marqués de Casa Concha. Para acompanhar uma refeição invernal, ou a comida do dia-a-dia, fico com o Marqués de Casa Concha merlot. Já para beber com pratos mais elaborados, sofisticados, escolho o Don Melchor. Finalmente, considero o Carmín de Peumo espetacular, com seu aroma, sua cor. Com ele, tenho certeza de que o Chile vai consagrar internacionalmente a uva carmenère.”