Nem o mais ansioso dos passageiros questiona o número de motores de um avião. Há muito já não se associa mais a extensão de um vôo ao número de motores de uma aeronave, o que de certa forma nivela um vôo doméstico de duas horas a uma travessia oceânica cinco vezes mais longa. Ambos, na maioria dos casos, são realizados com “apenas” dois motores. Com a mesma naturalidade, embarca-se em um Boeing 767/777 ou em um Airbus A330 para vôos sem escalas de 10 mil ou mais quilômetros sobre oceanos, florestas tropicais, vastidões desérticas e até o Pólo Norte, sempre dependendo apenas de dois motores. Esse grau de extrema confiança justifica-se pela moderna tecnologia dos motores, principalmente por sua excepcional vida útil entre as revisões de rotina.
Com um pouquinho de imaginação, sabemos o que pode significar voar horas e horas em rotas afastadas de pontos de apoio e, de repente, ver seu jato transformado em um monomotor – hipótese extremamente remota a se julgar pela aprovação dos órgãos internacionais que regulamentam o transporte aéreo. As “regras do jogo” que eles aprovaram são conhecidas internacionalmente por ETOPS (Extended Twin Engine Operations, que significa operações de longo alcance com bimotores). Desde sua instituição, permitem cada vez mais vôos sem escalas, sobretudo mais diretos, evitando o conhecido ziguezague só para manter uma distância relativamente próxima a um aeroporto emergencial. Até 1984, o distanciamento máximo permitido para bimotores era de apenas 60 minutos de vôo, passando para 120 minutos em 1985, tempo que em 1987 chegou a 180 minutos. Recentemente, alguns Boeings 777 passaram a ir além, mediante licença especial que acrescenta 27 minutos às já incríveis três horas de afastamento. A perspectiva de voar até três horas com um só motor pode não ser agradável, mas não passa de rotina para as companhias aéreas de ponta.
As operações ETOPS permitem vôos diretos, mais rápidos e econômicos, em aeronaves de menor porte, quando até há pouco as companhias aéreas eram forçadas a utilizar Jumbos de três ou quatro motores, superdimensionados, que partiam com meia ocupação – um flagrante desperdício de recursos. Agora, os órgãos de regulamentação estudam ampliar as já incríveis três horas de distanciamento para... cinco horas e meia! O ETOPS é a maior prova de confiança da comunidade aeronáutica mundial em relação à quase invulnerabilidade dos modernos motores fabricados pelas “três grandes”: General Electric, Pratt & Whitney e Rolls-Royce. O risco é de uma anomalia de motor a cada 50 mil vôos, praticamente zero.