Das receitas da vovó à alta gastronomia
Líquido mais consumido no mundo depois da água, o chá também pode ser encontrado nos mais refinados restaurantes texto text Edna Vairoletti
página: 1 de 1
Diz a lenda que, em 2737 a.C., o imperador chinês Sheng Nong, preocupado com as epidemias que devastavam o império, ordenou que todos fervessem a água antes de consumi-la. E que um dia, descansando à sombra de uma árvore, ordenou que aquecessem sua própria água. Enquanto esperava, algumas folhas caíram sobre a água fervente e lhe deram um tom esverdeado. Ele provou, gostou do sabor e incluiu as folhas em suas pesquisas, descobrindo suas propriedades medicinais. Mais tarde, as mudas começaram a ser plantadas, e o cultivo do chá expandiu-se pelo mundo.
Quase 5 mil anos depois, a China continua sendo o berço do chá, e os monges zen-budistas, seus maiores apreciadores. Eles o utilizam como um suave estimulante que favorece os estudos e a meditação, hábito que se difundiu pelo Oriente, pela Europa e outros continentes, onde o chá criou fama de bebida de elite.
Na Inglaterra, duas mulheres introduziram o chá na corte. A rainha Catarina de Bragança o trouxe de Portugal, ao se casar com o rei Carlos II. A duquesa Anna de Bedford criou o famoso “chá das 5”, um jeito nobre de exibir porcelanas e pratarias e saborear guloseimas entre as principais refeições. Especialista em chá, tea blender e proprietária da Loja do Chá, em São Paulo, Carla Saueressig conta que “uma praga nos cafezais do Ceilão levou os ingleses a misturar ao leite o chá preto vindo da Índia, então sua colônia, o que ajudou a popularizar a bebida pelo Ocidente, entre os séculos 17 e 19”.
No Brasil, 2008 é uma data importante também no universo do chá. Comemoram-se 200 anos da chegada da família real, quando d. João VI trouxe as primeiras mudas da China, plantadas no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Outro marco é o centenário da imigração dos japoneses, que trouxeram sementes na bagagem e, em sua cultura, o costume de beber chá. O cultivo começou no interior de São Paulo e o hábito se espalhou pelo país.
Segundo artigo publicado na revista americana Archives of Internal Medicine, o chá é a bebida mais consumida no mundo depois da água, posição de destaque para a qual os milhões de chineses muito contribuem. O principal equívoco, porém, reside em considerar que tudo seja chá. “Só é chá a bebida que leva as folhas ou brotos de camélia, cientificamente chamada de Camellia sinensis”, explica Carla Saueressig. “Todas as outras misturas de ervas, flores, frutos e especiarias não são chás, são infusões.”
Existe uma curiosidade quanto à origem da palavra. Em chinês, há um único sinal gráfico para chá, com duas formas distintas de se pronunciar, de acordo com a região e o dialeto. Essa duplicidade fez com que o nome, em outras línguas, se dividisse em dois grupos. Um segue a pronúncia te, que vem da palavra malaia, como é o caso do inglês, espanhol, italiano, francês e hebraico. O outro grupo parte de cha, do cantonês e mandarim, que significa apanhar, colher, e influenciou a palavra em japonês, português, russo, árabe, híndi, coreano e checo.
Altitude – acima de 700 metros –, colheita, solo, clima, seleção e tradição do canteiro são determinantes para a qualidade do chá. Os quatro principais tipos diferem pela fermentação das folhas. “No chá verde não há fermentação. Ela é interrompida pelo vapor, no Japão, ou em panelas Wook, na China”, detalha a especialista Carla Saueressig. “O tipo Oolong tem média fermentação, e no chá preto a fermentação natural é total. O chá branco é um dos mais raros. Suas folhas e brotos são bem jovens e a fermentação é de cerca de 2%.”
O preparo deve respeitar os tempos corretos de infusão e temperatura da água, para que o chá não perca suas propriedades.
O sabor amargo resulta do excesso de repouso e é a primeira reclamação de quem se inicia nessa arte. Como nos vinhos, deve-se começar pelos aromatizados com flores, frutas e ervas, até aguçar o paladar e saber apreciar um Gyukuro Kimigayo. Cultivado no Japão, ele é um dos chás verdes mais caros do mundo: 20 gramas custam em torno de 350 reais.
A gastronomia também descobriu o chá. Vários restaurantes buscam a ajuda de um tea blender para criar cartas especiais e harmonizações da bebida com os pratos principais. Segundo Carla Saueressig, “o chá verde é mais leve e combina com peixes e vegetais. O chá preto, mais encorpado, com carnes e massas. Nas sobremesas, os aromatizados ou pretos puros”. O chá é, ainda, ingrediente de bolos, tortas, geléias, salgados e trufas de chocolate, com combinações saborosas e suaves.
Na saúde, os benefícios do chá remontam ao século 3o a.C., quando já era utilizado pelos chineses como medicamento e tônico, pois proporciona aumento de concentração e vivacidade, graças principalmente à cafeína. Apesar de indicado para aliviar sintomas de gripe e até em dietas, os especialistas lembram que o chá e as infusões não queimam calorias. Apenas contribuem para estimular o metabolismo, auxiliar na eliminação de toxinas e facilitar o funcionamento do organismo. Em grande quantidade e sem orientação, pode até ser prejudicial.
Mas as vantagens podem ir além do físico, pois beber chá em cerimônias de socialização, momentos de relaxamento e até antes da meditação cria uma atmosfera de bem-estar. “Não importa começar pela infusão da vovó para gripe ou do amigo para curar aquela dor de cabeça de ressaca”, opina a especialista Carla Saueressig. “O hábito de tomar chá precisa surpreender. A bebida deve proporcionar prazer pelo aroma e pelo sabor e ser uma chance de compartilhar uma xícara com quem se quer bem, ou em casa, sozinho, para relaxar.”
Cerimônia do chá: simplicidade, harmonia e paz
Entre os japoneses, o hábito de tomar chá atinge o auge no chanoyu, ou cerimônia do chá. Preservada há 500 anos, ela mantém os ensinamentos de seu criador, o mestre Sen-no-Rikyu, que, no século 16, delineou sua estrutura, privilegiando o espírito do desprendimento aliado a quatro princípios básicos: wa (harmonia), kei (respeito), sei (pureza) e jaku (tranqüilidade, paz de espírito). O ritual pode demorar até quatro horas, e todos os detalhes são cuidadosamente preparados pelo anfitrião, que, no entanto, não participa com os convidados.
A sala de chá deve ser forrada por tatames, que seguem medidas-padrão. Cada lugar é predeterminado e respeita-se uma hierarquia: o convidado mais importante é o que estará mais próximo do tokonoma (recanto principal da sala). O que primeiro chama a atenção dos convidados é o kakemono, rolo de caligrafia que traz pensamentos e poemas que remetem ao motivo do encontro. No ar, o incenso purifica o ambiente e traz equilíbrio. Pode haver ou não uma refeição.
O matcha é o chá da cerimônia. Diferente dos demais, nele não se faz uma infusão: os brotos de folhas tenras são colhidos em maio, processados e guardados, para só serem utilizados a partir de novembro. Para a cerimônia, as folhas são passadas por um moedor de pedra, transformando-as em um finíssimo pó verde. Extremamente amargo, ele é misturado à água quente e batido com um chasem (espécie de batedor de bambu), resultando num chá espumante e cremoso.
O jardim também é essencial no chanoyu. Deve ser o caminho que conduz para a sala do chá. Representa um espaço de passagem, onde os convidados deixam para trás suas preocupações do dia-a-dia. A cerimônia tem exatamente este objetivo: induzir cada convidado a se desligar do mundo exterior e viver o novo. Nem as conversas devem remeter à vida cotidiana. Nos momentos de diálogo, deve-se falar do que se está vivenciando: a arte, o paladar, o sabor, o silêncio e a paz.